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Jornal Valor Econômico
Caderno Empresa e Comunidade

20 de janeiro de 2006

Operários fazem arte com resíduo do canteiro de obras
por Liana Melo, para o Valor do Rio.

O canteiro de obras que a H. Guedes Engenharia montou na Penitenciária do Estado, unidade prisional que sobreviveu à implosão do complexo do Carandiru, em São Paulo, vira um ateliê-escola de arte, todo final de tarde. Cerca de 250 operários se revezam diariamente no galpão da construtora. O material usado nas aulas de artes plásticas é resíduo gerado no próprio canteiro. Depois de seis meses de trabalho, os trabalhadores descobrem que é possível fazer arte com restos de materiais de construção. Não faz muito tempo que essa empreiteira, que é especializada em obras públicas, liberou seus operários para passarem parte da rotina diária de trabalho no ateliê.

"Promovemos a inclusão social e a capacitação cultural, além de discutirmos questões como consciência ambiental. Nosso trabalho mexe com a auto-estima desses trabalhadores e os indicadores de resultados têm demonstrado que o relacionamento no grupo melhora enquanto a carga de estresse desses operários diminui", analisa o arquiteto Arthur Pugliese. Ao lado do educador ambiental Daniel Cywinski, ele coordena o projeto Mestres da Obra - que promove à inclusão social por meio das artes. É tradição no setor concentrar recursos em programas de alfabetização, dado o alto grau de analfabetismo entre os operários da construção civil.

O Mestres da Obra pretende reverter uma tendência que nem os mais sofisticados modelos macroeconômicos conseguiram dar conta: o desequilíbrio social. Não é à toa que os operários da construção civil costumam ser, segundo levantamento do IBGE, mais propensos à criminalidade entre os desempregados do que outras categorias profissionais. "Acreditamos que as artes têm uma capacidade transformadora", analisa Pugliese, que conquistou o prêmio Amanco "Por Um Mundo Melhor", em 2004.

Até Le Corbusier, o consagrado arquiteto francês considerado um dos mais importantes do século XX, costuma ser citado nas aulas dadas por Pugliese e Cywinski. A referência é usada para exemplificar como tubos de PVC, vergalhões de ferro, concreto, sacos de cimento, pregos, arames, tinta látex, pedaços de madeira e até mesmo capacetes podem ser reaproveitados dando lugar a peças criativas.

Um canteiro de obras costuma ser um terreno fértil para a produção de lixo em larga escala. A quantidade de entulho gerada no Brasil chega a 25% de uma obra e todo esse resíduo invariavelmente acaba numa lata de lixo ou mesmo poluindo terrenos e rios próximos ao empreendimento. Ao reciclar os resíduos, o Mestres da Obra viabiliza o enquadramento do setor à resolução 307, do Conselho Nacional do Meio Ambiente. O Conama determina que todas as construtoras devem encontrar soluções para o entulho que geram, sendo responsáveis pela coleta e destinação dos resíduos da construção civil. A resolução entrou em vigor em janeiro de 2005.

A preocupação como o meio ambiente passou a ser para o mundo empresarial mais do que um diferencial competitivo - é uma forma de reduzir desperdícios e evitar a degradação da biodiversidade. Isso significa, entre outras medidas, economizar água, energia e matérias-primas por meio do uso racional desses materiais. Além de servir como matéria-prima para obras de arte, o resíduo gerado num canteiro de obras pode também ser reutilizado no próprio empreendimento, transformando-se em pisos e componentes para argamassa.

Da experiência nos canteiros de obra resultou num acervo rico em peças de ecodesign. É esse trabalho que Pugliese e Cywinski pretendem produzir em larga escala a partir desse ano. "Negociamos com algumas empreiteiras, como a Setim Empreendimentos Imobiliários, montar um ateliê-escola de artes permanente. Queremos criar novas oportunidades de geração de emprego e renda para os operários que mais se destacaram nesses últimos três anos. Muitos deles são verdadeiros artistas", comenta Pugliese, que já criou a grife Mestres da Obra, de acessórios de casa.

O grupo Camargo Corrêa, um gigante de 16 empresas com atuação em diferentes segmentos, como o de engenharia e construção, e faturamento anual em torno de R$ 7,5 bilhões, também vem ajudando crianças e jovens nas áreas onde atua. Através do Instituto Camargo Corrêa (ICC), apóia 80 projetos sociais. Resultado de uma parceria com os Doutores da Alegria, organização pioneira no Brasil em levar a arte do palhaço a crianças e adolescentes hospitalizados, o ICC desenvolveu o projeto "Transformando com Arte". As oficinas de formação de palhaços são oferecidas a cerca de 25 jovens, de 17 a 21 anos provenientes de famílias de baixa renda da periferia de São Paulo.

"Essa iniciativa integra nossa estratégia de criar as bases para que a 3besteirologia3 venha a se tornar uma profissão de futuro", brinca Wellington Nogueira, fundador da Ong Doutores da Alegria. O projeto tem como objetivo desenvolver uma carreira artística e profissional em diferentes campos de atuação, mas não se trata de um curso para formar novos Doutores da Alegria. Nada impede, no entanto, que algum desses jovens venham a ser incorporados ao elenco da instituição. Ao determinar como público-alvo para o projeto "Transformando com Arte" especificamente jovens de baixa renda e em fase de profissionalização, a instituição procura proporcionar-lhes o contato com a arte do palhaço e a oportunidade de vislumbrar, a partir dessa atividade, uma nova realidade profissional e social.

"O projeto Transformando com Arte foi um dos 11 selecionados pelo Programa Profissão Futuro do Instituto Camargo Corrêa, que visa habilitar, durante dois anos, jovens como artistas-empreendedores, transmitindo-lhes também noções de como gerenciar suas próprias carreiras e projetos", explica José Augusto Muller, diretor-executivo do ICC. Dos 7 milhões investidos pelo ICC no Programa Profissão Futuro, R$ 1 milhão foram canalizados para a parceria com os Doutores da Alegria.

 

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