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Diário do Grande ABC
08 de setembro de 2005

Canteiro de arte
Mestres da Obra, projeto que leva arte a operários da construção civil, abre exposição.

Por Alessandro Soares

Engajados na arte, operários da construção civil mostram que seus conhecimentos práticos também podem ser usados como instrumento de crescimento pessoal. Resíduos de material de construção como PVC, vergalhões de ferro, tapumes de madeira, concreto e tinta látex se transformaram em telas, esculturas, instalações e objetos de design. Desde 2002, o projeto Mestres da Obra, nascido em Santo André , atendeu quase 300 operários, serventes e ajudantes na maioria, com noções de arte e cidadania no próprio canteiro de obras. Com início hoje no Saguão do Teatro Municipal de Santo André da mostra Consciente Criativo, o público pode conhecer os primeiros resultados dessa experiência, com 60 obras de 40 operários-artistas. Os apoiadores do projeto são Solvay Indupa, Instituto do PVC, Dominus e o Diário.

Arte como instrumento de transformação da vida individual para melhor é o ponto de fuga da arquitetura da teoria estética do dramaturgo alemão Bertold Brecht (1898-1956), que colocou operários como atores da História em suas peças teatrais. Em Santo André , o arquiteto Arthur Pugliese e o educador ambiental Daniel Cywinski elaboraram um projeto de formação cultural de formação cultural coincidente com a teoria brechtiana, trabalhando o ser humano por meio da arte, design e cultura.

Pugliese conhece canteiros de obras e as condições de trabalho in loco; Cywinski preocupa-se com o destino final das sobras da construção. À pergunta “por que não fazer arte nos canteiros com os resíduos sólidos?” os dois responderam constituindo a metodologia do projeto Mestres da Obra: entender esses operários e estimular a inteligência coletiva. “Em lugar de apenas executar ordens geométricas e exatas, os operários passaram a refletir, escutar opiniões e discutirem, valorizados como sujeitos e geradores de laços sociais, não só de trabalho e produto”, disse Cywinski.

O primeiro ateliê implantado pela dupla num canteiro de obras foi em Mauá, no Jardim Zaíra, em agosto de 2002. Como a construtora era de amigos de Pugliese e Cywinski, não houve empecilho. Primeiro, a dupla explica o projeto junto a departamento de comunicação e marketing da construtora. Autorizados, conversam com os engenheiros e mestres encarregados. Normalmente, são liberados os operários cujas funções não causariam atrasos nas obras, em horários combinados.

Mas não foi tão fácil assim. Várias tentativas em outros canteiros esbarraram em vários “não”. Tiveram sucesso com a construtora H. Guedes, que faz as obras do Epac (Escola Parque de Arte e Ciência), no Parque Central, em Santo André , e que ganhou a concessão para as obras onde existia o presídio do Carandiru. O ateliê permanece atualmente no canteiro da construtora Setin, no Cambuci, em São Paulo. “Ainda é uma idéia inovadora. Muitos acham que o projeto prejudicaria a produtividade, mas na Setin fazemos sem problema algum – eles fecharam conosco pelo período de dois anos – e a produção não está prejudicada, pelo contrário. Tem agregado outro valor”, afirmou Pugliese.

O principal dado sociológico do Mestres da Obra vem do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), segundo Cywinski. O órgão constatou que a propensão à marginalização entre os desempregados no Brasil é maior entre os operários da construção civil. A partir do projeto, Pugliese e Cywinski esperam agregar mais um dado, a melhoria desses indicadores. “Nos ateliês, eles são livres para falar de si mesmos. A melhoria da auto-estima é evidente”, afirma Cywinski. Ele exemplifica com a história de um engenheiro, que se aproximou do operário Valdeci Abonízio e perguntou o que era aquilo que ele estava fazendo. “Uma chaise long Le Corbusier”, disse o operário, com a boca vazia de dentes. O engenheiro emudeceu, virou-se sem falar nada e foi embora. A cadeira, trançada em vergalhões, está na Exposição em Santo André.

A peça Dia a Dia (o capacete azul circundado por uma coroa de espinhos feita de aço reproduzido nesta página), de Antônio Hermínio dos Santos, de Diadema, tornou-se uma das referências do projeto. Hermínio, moldador, 37 anos, casado e pai de dois filhos, tornou-se um dos ícones do Mestres da Obra. Foi participar do ateliê no canteiro de obras da Epac, em Santo André , sob insistência do engenheiro, já que não tinha nenhum interesse em arte. “A gente é meio rude, sem preparo para expandir a percepção. No início, conheci as obras de Luiz Sacilotto no projeto, olhava com olho torto. Depois, passei a entender o trabalho do artista, como ele fez, a mensagem. Eu mesmo mudei. Era muito estressado, turrão. Agora ocupo mais a mente, procuro ouvir a opinião das pessoas”, disse.

Hermínio e os organizadores do projeto estarão no dia 13, no auditório da Prefeitura, para um bate-papo aberto ao público sobre o processo educacional do Mestres da Obra, ás 19h. No dia 15, os operários-artistas participarão de um vernissage com direito a coquetel para verem suas próprias criações.

 

 

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